quarta-feira, agosto 22, 2007

"Convidada"

Em um planeta esférico, sob o olhar tornado propriedade privada de muitos de nós, encontramos formas de contornos plúmbeos. São esferas tristonhas, soturnos monolitos, pesados poemas de cores que induz o pensamento distante e universal, com que muitos, a despeito de uma paixão, sintam e resfóleguem nessa obra constituída por um só bloco de pedra subjugada, constantemente ditadas por trapos de panos tingidos, por mãos aflitas, por sopros incontestes de autoridade superior. Alguém pinta para embelezar, que bom. Em harmonia, se me fosse dado falar da obra de Wall Santos Veloso, assim eu o faria, mas resguardaria-me do fato de tela visto pintar com as mãos nuas, de tê-la observado sob uma música estridente e invasiva, de tê-la surpreendido em sinceridade de alma, cabisbaixa a colecionar satélites. Descubro que nada vale o opróbrio diante de tanta candura, a de se pintar em estado puro, bruto e elegante. Esqueço-me das monstruosidades estéticas das coleções e dos colecionadores, das graciosidades do tempo da arte, dos vexames, explicações e desventuras do betume sobre o metal. Cabe a mim escapar, olhando em redor, distraído. Não vislumbro nenhum inesperado, disfarço meu contentamento diante de tais segredos descortinados pela arte duradoura desta matrona. Tenho sorte pois não habito as montanhas, nem me afaga o clarão, tão pouco se me dou em pestanejos. Ela pinta solitária e isso me satisfaz.
Luiz Carlos Rufo