sábado, março 31, 2007
"Barba Azul"
"Não há nada de mágico ou de sobrenatural na estória da submissão feminina na sociedade patriarcal. No desfecho da fábula, a heroína é salva da morte e herda uma fortuna, porque reza e pede proteção divina. No conto de Perrault conhecido como Barba Azul, apesar de hoje excluído das histórias infantis devido à violência e também por não apresentar crianças como personagens, serve para delinear o premio e o castigo para o sexo feminino, tudo porque se trata de um casamento mal sucedido, pela prática bárbara do marido que matava as esposas e colecionava os cadáveres...”
terça-feira, março 27, 2007
domingo, março 25, 2007
sexta-feira, março 23, 2007
"O Coelho"

Ao passo que se me atentar a obra esqueço as urgências que dela emanam, esqueço seus compromissos, esqueço sua beleza sedutora, esqueço-me e aprofundo-me no fazer contínuo e monótono que são os atributos verdadeiros, relativos aos movimentos e às forças essenciais para quem produz, para você que produz, para eu mesmo. Não se pode responder a questões formuladas ao vivo e na sua frente, na frente de quem questiona, sem que a ilustremos com exemplos não sucedidos por nenhum outro de seu gênero. Por exemplo, nesse atelier, é necessário rapidamente apontar com o dedo as obras encostadas aqui e acola, designando-as a valores relativos para que incorporem significados do momento e traduzam seus pesares e os de seu produtor. Essa é, creio, uma das mais nobres funções da obra de arte, produzida por artista, inserida em significação rigorosa de sua palavra constituida, de sua aparência mutavél, de sua privação, voluntária ou não, de falar abertamente de sua história, de seu gozo ou de seu padecer. Portanto, respondo aos questionamentos para com o tempo de obra e de mercado dizendo, que apenas no meu caso, o coelho passeia.
Perguntar e atentar para as respostas são os desafios primeiros de um encontro, enriquecidos por detalhes de mãos que, ao responderem, desenham suavemente no ar a resposta esperada, contrariando a boca que se esforça para apreender fragmentos, iluminações e construções que determinam as relações formais que interligam-se na sintaxe. Porém, basta olhar os pequenos exemplos, sem pressa de chegar, para constatar-se de que o objeto de discussão se encontra ali, antecedendo ao tempo, com todas suas prerrogativas, o que é regalia adquirida, um privilégio que possue-se ao natural, pois representam uma determinada classe de respostas engendradas na imagem e que encontramos na arte de fazê-las, mas só quando nela passeamos de braços com o coelho.
Trecho da entrevista com Luiz Carlos Rufo realizada por Taís Wonder Grimme
Tema: Arte do Mercado
Árvore 637 – março de 2007
leia a entrevista na integra que será publicada no blog da árvore.
Fotos de Mira Serrer Rufo
terça-feira, março 20, 2007
"Viandante estelar"






Luiz Carlos Rufo
"Mercado"

“No mercado há vendedores e compradores, portanto uma ação entre amigos que é escusável da mercadoria. Ela, a mercadoria, é fator metáfortico para as relações entrelaçadas que em seu ambito contínuo e voraz faz apenas rechaçar valores da natureza de algo e passa ao largo do que entendemos por arte. Me pergunta, portanto, sobre a arte e seus valores? Digo, se é que lhe satisfaz, da arte sem valores, daquela desprovida e bela que pode ser vista aqui e ali pelos cantos, pois valores, creio, retringe-se as promissórias constituídas de elementos heterogêneos juntados desordenadamente, que é próprio de algo vendável, fruto inconteste de uma sociedade que barganha seus supostos valores, engendra suas conquistas, depravam a liberdade. A liberdade que está aí, aquela do ir e vir, aquela concedida por quem liberta que apenas exprime a máxima de quem liberta faz comprar. Quem compra seus males espanta. Submetidos a essa liberdade ofertada o fazer artístico é apenas promissivo. O objeto do valor se expurga de valores.”
Trecho da entrevista com Luiz Carlos Rufo realizada por Taís Wonder Grimme
Tema: Arte do Mercado
Árvore 637 – março de 2007
leia a entrevista na integra que será publicada no blog da árvore.
quinta-feira, março 15, 2007
domingo, março 11, 2007
sábado, março 10, 2007
terça-feira, março 06, 2007
"A beleza das eudoras"

Naquele dia a cor pastosa do amarelo inerente, quase às barras de pano depositadas em desalinho sobre a chaise-longue, trepidava. Rubina dizia sem olhar seu interlocutor que tal cadeira surgira já nos anos finais do séculoXVII e que permitem, de maneira singular, estender as pernas, alastrando-se, podendo-se unir, para isso, 2 ou 3 assentos. Percebi, despojados aqueles panos de seu verdadeiro valor sobre o balcão, o que intrigou-me. Era ela. Era uma roupa. Ela gosta de guitarristas e é esquia. Era uma borda de céu. Era um pedaço visível dela. Acho que sempre ela será magra.O sol do dia repetia incessantemente condições de luz e sombra no ambiente; o que fazer diante de tanta reverberação? Ela declama olhando a janela, depois dá pulinhos. Acho mimoso isso. Ela acredita e é honesta em praticar:
Não quero trabalho;
Não quero cigarro;
Não quero carro;
Vivo meus pés!
Eu pintará sem encontrar o que em mim era tão natural, e em um tempo tão extenso que me desconheci sem compreender aquele comprimento de onda que faz parte dos espectros visíveis, capaz de produzir no olho uma sensação característica, mesmo sendo todas as tonalidades pendentes para o amarelo. Ela tem os cabelos escorridos como os de uma égua que conheci um dia. Vão escorrendo, deixando as pontas das orelhas a amostra, até sumirem em poucos fios.
Com a impressão cansada daquele amanhecer, refleti na feitura de um café reparador, minha única esperança até então. Ela e sua beleza formavam um par. De mãos dadas mas não únicas. Como se fluíssem de fontes diferentes e por um único motivo secreto encontravam-se, uniam-se, formando aquilo em que em mim doía. Sempre cheirando a qualidade, destacando-me nas propriedades e no que havia aprisionado dela. Ela de um caráter arrebatador, sempre simples, me parecia, as vezes, meio menino dos excertos romanos, comendo aquele pão com manteiga sobre o balcão da padaria (aquilo eram modos?) e falando, sempre ao mesmo tempo. Um jeito de cair dos cabelos, um vítreo de seu olhar claro. Rubina, essa seria uma virtude do que é belo? Pois a beleza é maléfica, eu sei. O doce é uma manifestação característica do belo, doado. O caráter do ser que porta, por castigo, a beleza é, ou da coisa que desperta sentimento de êxtase, pura admiração ou prazer medonho de calor e arrepios, de ardor de um logo tapa. Ela, que bela, através de sensações visuais me encanta, salivo em ondas gustativas; Mozart em aulas auditivas; os “Peixes” minhas pinturas, suscitam a admiração e deslumbram-se em olfativas: hum, hum, hum.Os sentidos, que se expunham diante da duvida, arriscávamos observando-os em chamados angélicos. Os sentidos químicos dos doces que ela comia, desrespeitando a ordem de seus receptores, eram tão excitados, tão estimulantes, que duvidava não serem arquitetados. Eu sempre repetia para ela, Rubina na superfície de sua língua que minuciosamente explorava reluziam dezenas de papilas, queria de perto aqueles alimentos do ar. Esses sentidos deixava-os trabalharem em prol de minhas poesias conjuntamente com a percepção de seus sabores ancestrais. Rubina quando fala, declama. Seus gestos estão no centro de meu olfato, sua mão bailava o gosto impresso em meu cérebro iludido, combinando as informações sensoriais, criando, mas tudo não passava de sua língua em meu nariz. Rubina, Rubina!
Luiz Carlos Rufo – trecho de “A beleza das eudoras”
Não quero trabalho;
Não quero cigarro;
Não quero carro;
Vivo meus pés!
Eu pintará sem encontrar o que em mim era tão natural, e em um tempo tão extenso que me desconheci sem compreender aquele comprimento de onda que faz parte dos espectros visíveis, capaz de produzir no olho uma sensação característica, mesmo sendo todas as tonalidades pendentes para o amarelo. Ela tem os cabelos escorridos como os de uma égua que conheci um dia. Vão escorrendo, deixando as pontas das orelhas a amostra, até sumirem em poucos fios.
Com a impressão cansada daquele amanhecer, refleti na feitura de um café reparador, minha única esperança até então. Ela e sua beleza formavam um par. De mãos dadas mas não únicas. Como se fluíssem de fontes diferentes e por um único motivo secreto encontravam-se, uniam-se, formando aquilo em que em mim doía. Sempre cheirando a qualidade, destacando-me nas propriedades e no que havia aprisionado dela. Ela de um caráter arrebatador, sempre simples, me parecia, as vezes, meio menino dos excertos romanos, comendo aquele pão com manteiga sobre o balcão da padaria (aquilo eram modos?) e falando, sempre ao mesmo tempo. Um jeito de cair dos cabelos, um vítreo de seu olhar claro. Rubina, essa seria uma virtude do que é belo? Pois a beleza é maléfica, eu sei. O doce é uma manifestação característica do belo, doado. O caráter do ser que porta, por castigo, a beleza é, ou da coisa que desperta sentimento de êxtase, pura admiração ou prazer medonho de calor e arrepios, de ardor de um logo tapa. Ela, que bela, através de sensações visuais me encanta, salivo em ondas gustativas; Mozart em aulas auditivas; os “Peixes” minhas pinturas, suscitam a admiração e deslumbram-se em olfativas: hum, hum, hum.Os sentidos, que se expunham diante da duvida, arriscávamos observando-os em chamados angélicos. Os sentidos químicos dos doces que ela comia, desrespeitando a ordem de seus receptores, eram tão excitados, tão estimulantes, que duvidava não serem arquitetados. Eu sempre repetia para ela, Rubina na superfície de sua língua que minuciosamente explorava reluziam dezenas de papilas, queria de perto aqueles alimentos do ar. Esses sentidos deixava-os trabalharem em prol de minhas poesias conjuntamente com a percepção de seus sabores ancestrais. Rubina quando fala, declama. Seus gestos estão no centro de meu olfato, sua mão bailava o gosto impresso em meu cérebro iludido, combinando as informações sensoriais, criando, mas tudo não passava de sua língua em meu nariz. Rubina, Rubina!
Luiz Carlos Rufo – trecho de “A beleza das eudoras”
segunda-feira, março 05, 2007
"FABULADOR"

Narro popularmente, com um propósito firme de que venha a ser entendida essa fala, pois sou afeito as artes e compreendo que tudo isso que esta em nossa volta, com certeza, não passa de mera imaginação. Olhe para fora você e diga.
Considero também os pássaros, apesar de não soletrarem como o faz os tantos outros animais. Com eles as oportunidades são muitas pois comunicam-se através de gestos. Quando vemos alguém humano ensaiando uma dança com gestos feitos pelos braços, olhando o infinito em busca de concentração, essa pessoa dentro desse precioso momento simplesmente fala a língua dos pássaros, sem saber, claro. O pássaro sabe que o gesto deve sempre anteceder, isto é, acontecer antes, adiantar-se ao canto das palavras, ou então, pelo menos, acompanhá-la. Nunca suceder, ou seja, acontecer depois. Eles são pássaros por isso e por seguir, sobrevir, sucedendo-se cantando, sem palavras, traduzindo aquilo que se recomenda praticar cingido com absoluto rigor na determinação de medidas, pesos e valores. Ah, os pássaros. Samuel da Estimação, da espécie dos periquitos predominantemente verde claro, com uma das asas acidentadas só come lingüiça frita, pão com manteiga, vejam só, dormia com sua dona virado em bola de penas. Ele é dessas espécies de pássaros muito conhecida por “Budgerigar”, nome derivativo da língua aborígine australianas, com o singelo significado de "Pássaro Bonito", só para ilustrar seu conhecimento. Exigente com os devidos cuidados que merece, insinua-se, sempre que pertinente, sua tendência de contrair constipações que podem ser fatais se não forem tratadas com atenção e carinho, principalmente quando expostos a frustrações ou ambientes muito úmidos. Mas canta ao longo de sua breve vida, se comparada com as expectativas dos humanos, exibindo seus dois tipos de penugem que se sucedem na juventude e na maturidade.
Samuel sempre defende suas posições. É matreiro, sabe agir de maneira a angariar para si vantagens e a não se deixar-se enganar. Sendo assim ele nos encanta e oferece sempre no final de seus diálogos um preceito moral. O fato de não poder voar lhe é benevolente pois não habita gaiola, mora no espaldar do sofá, e de sua posição privilegiada observa, diariamente, sem atabalhoar-se, a cozinha da casa onde as lingüiças são fritas.
Samuel da Estimação, um pássaro, pertencente ao domínio do espírito dos homens, canta.
Luiz Carlos Rufo / fev de 2007
"Gárgula da Maldade"

(Luiz Carlos Rufo - trecho de Navegando em sua nudez)